segunda-feira, 29 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (um buraco de água azul que nem azul é)

Do outro lado do morro, há uma cidade que desperta em mim uma estimulante curiosidade.
Atravesso o mato, passo o rio, subo o morro, desço o morro e lá estou.
Há carros, casas, muitas ruas, muita gente.
Há um clube! E essa tal de piscina, um buraco de água azul que nem azul é.

Sempre me perco.

Aqui, assustada, com o coração batendo no compasso de meu desespero, nada entendo.
Não sei por que me afasto da casa, do meu refúgio em meio à mata, do rio que num belo capricho formou uma sanga.

Esse impulso de ir àquela cidade já adentrou meu ser.

Naquele cantinho que ainda resta inteiro, vejo a mata que já mora também na casa.
Ah!
Foi assim que começou.
Agora sei.

domingo, 28 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (ou começo a reconhecer)

Havia uma causa.
E havia uma casa.

Uma boa casa, grande e sólida, em meio ao verde.
Havia uma boa família, grande e sólida, abrigada na casa em meio à vida.
Havia.

Ainda vou lá, a casa não em nada mudou.
Mas agora, do outro lado do morro, há uma cidade que não reconheço.
É curioso, estimulante.

É assustador como o impulso de ir àquela cidade me toma de assalto.
Mais assustador é eu agir impulsivamente.
Do outro lado do morro, há uma cidade que desperta em mim uma estimulante curiosidade.

Não me reconheço.
Ou começo a reconhecer.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (É impossível esquecer)

O que aqui se segue são escritos atemporais.
Mas não necessariamente.

Eu escrevo sem limitações. Sem limitações.
De coerência.
De racionalidade.
De emoções.
De sentimentos.

Que venha o que deve vir.

Eu diversas vezes soube teu nome, mas nunca me dei ao trabalho de anotá-lo, tamanha a certeza de que não o esqueceria.
Mas sempre esqueço.
E quando lembro, sei que é impossível esquecer.
Mas sempre esqueço e nunca anoto.
Sempre esqueço, somente o nome esqueço.

É impossível esquecer.

Havia em mim o medo da morte. Porque eu era boa em matar e não queria morrer, porque queria matar. E acaso eu morresse... Isso não importava; acaso eu morresse o que importava era os que eu deixaria de matar.

Havia uma causa.
E havia uma casa.

Uma boa casa, grande e sólida, em meio ao verde.
Havia uma boa família, grande e sólida, abrigada na casa em meio à vida.
Havia.

Nesta casa eu somente ocupava um pequeno espaço, menos destruído que o resto. Deixava a casa assim, destruída. a visão da destruição me era útil. Como esconderijo. Como alimento constante de minha memória. Esta casa tinha vida, em suas veias corria o sangue dos que tiveram ali o seu sangue derramado. E se estou aqui, e se somente eu fiquei, há o porquê.