domingo, 25 de abril de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (Um abraço verde)

A mata passou a morar na casa sem permissão, mas veio com tamanha mansidão, ocupando os espaços sem medir forças com a sagrada solidez daquele recanto, que fui deixando estar, mas sempre atenta para acabar com aquela invasão ao mínimo detalhe que pusesse em risco a vida da casa.
Com o tempo, fui gostando daquele abraço verde, meu cantinho foi se tornando mais aconchegante, não havia invasão, havia integração.

Só muito tempo depois é que soube: a mata foi purificando o sangue da casa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (um buraco de água azul que nem azul é)

Do outro lado do morro, há uma cidade que desperta em mim uma estimulante curiosidade.
Atravesso o mato, passo o rio, subo o morro, desço o morro e lá estou.
Há carros, casas, muitas ruas, muita gente.
Há um clube! E essa tal de piscina, um buraco de água azul que nem azul é.

Sempre me perco.

Aqui, assustada, com o coração batendo no compasso de meu desespero, nada entendo.
Não sei por que me afasto da casa, do meu refúgio em meio à mata, do rio que num belo capricho formou uma sanga.

Esse impulso de ir àquela cidade já adentrou meu ser.

Naquele cantinho que ainda resta inteiro, vejo a mata que já mora também na casa.
Ah!
Foi assim que começou.
Agora sei.

domingo, 28 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (ou começo a reconhecer)

Havia uma causa.
E havia uma casa.

Uma boa casa, grande e sólida, em meio ao verde.
Havia uma boa família, grande e sólida, abrigada na casa em meio à vida.
Havia.

Ainda vou lá, a casa não em nada mudou.
Mas agora, do outro lado do morro, há uma cidade que não reconheço.
É curioso, estimulante.

É assustador como o impulso de ir àquela cidade me toma de assalto.
Mais assustador é eu agir impulsivamente.
Do outro lado do morro, há uma cidade que desperta em mim uma estimulante curiosidade.

Não me reconheço.
Ou começo a reconhecer.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Talvez não morto, mas soterrado (É impossível esquecer)

O que aqui se segue são escritos atemporais.
Mas não necessariamente.

Eu escrevo sem limitações. Sem limitações.
De coerência.
De racionalidade.
De emoções.
De sentimentos.

Que venha o que deve vir.

Eu diversas vezes soube teu nome, mas nunca me dei ao trabalho de anotá-lo, tamanha a certeza de que não o esqueceria.
Mas sempre esqueço.
E quando lembro, sei que é impossível esquecer.
Mas sempre esqueço e nunca anoto.
Sempre esqueço, somente o nome esqueço.

É impossível esquecer.

Havia em mim o medo da morte. Porque eu era boa em matar e não queria morrer, porque queria matar. E acaso eu morresse... Isso não importava; acaso eu morresse o que importava era os que eu deixaria de matar.

Havia uma causa.
E havia uma casa.

Uma boa casa, grande e sólida, em meio ao verde.
Havia uma boa família, grande e sólida, abrigada na casa em meio à vida.
Havia.

Nesta casa eu somente ocupava um pequeno espaço, menos destruído que o resto. Deixava a casa assim, destruída. a visão da destruição me era útil. Como esconderijo. Como alimento constante de minha memória. Esta casa tinha vida, em suas veias corria o sangue dos que tiveram ali o seu sangue derramado. E se estou aqui, e se somente eu fiquei, há o porquê.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Como Ismália

Como Ismália, quero o céu, desejo o mar.
Se me prendem em uma torre, canto,
e minha voz se une a dos anjos,
que se enternecem e me dão asas para voar.
Deixo estar meu corpo na torre e liberto minha alma,
assim, então, sinto que esta finalmente sou eu.